sábado, 28 de setembro de 2013

Quando amei em Curitiba...

De uma velha cadeira retirada do lixo, que um dia foi de balanço e hoje é de coceira, observo meu quarto de um ângulo diferente. Nos ouvidos, Chico; no rosto, o sol; na cabeça, a vontade de me apaixonar. No coração, um oco; nos olhos, sete graus de miopia sem óculos. E na boca, apenas o hálito da sopa que acabei de comer. São três horas, sexta-feira. Entre a janela e a porta existe um vão preenchido por parede. A janela não tem todos os vidros, dois deles deram lugar a radiografias dos meus rins. O rádio vai passando minha seleção de músicas do chico: passa de amores a bandas sem nem mesmo soluçar. Da direita para a esquerda, para onde as sombras das árvores estão se deslocando, passam pássaros sem me notar aqui, sentada. Não os distinguo, são pássaros, apenas pássaros, por mais que alguns deles se pareçam papagaios. Acho que não existem pássaros-papagaios no centro de Curitiba. Se forem mesmo papagaios, creio que está solucionada a questão fronteiriça que me divide entre o centro e o alto da XV. Chico pegou no meu ponto fraco. Já volto. Agora escuto "Orfeu da Conceição". O sol já começa a se por. Coloca uma camiseta. Fecho a porta. O som da rua que deixou de entrar me permite ouvir Vinícius recitando o monólogo de Orfeu. Apesar de sozinha, feliz. As sextas são sempre diferentes dos domingos...

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