segunda-feira, 25 de março de 2013

Promessas de Ano Novo


    As coisas andam meio assim, em ritmo de férias... A gente promete que vai começar o ano diferente, promete que vai emagrecer, promete que vai escrever toda semana... Será mais um ano de sonhos não realizados e promessas não cumpridas?

    Passo na farmácia e vejo que já engordei. Fico navegando ao invés de escrever a coluna da semana... Então vem a era das tecnologias, com seus facebooks e teewts...e me acabo. Todos nós vemos o sucesso de nossos amigos, conhecidos e até de nossos inimigos. Todos evoluindo na vida, conquistando, promovendo, viajando... ganhando o mundo! Será que só eu me contentei com minha pseudovidacomum, com minha casa e filho, com meu cotidiano e café com pão? 

   Há alguns anos eu tinha grandes sonhos... Ser atriz, ser cantora, viajar,... Aonde estão meus sonhos exorbitantes? Olho os meus amigos e conhecidos pelo facebook e fico me culpando... Porque eu estou feliz com essa vida tão comum? Não tenho notícias interessantes pra postar, não tenho grandes viagens, não vejo muitas coisas, não tenho muitos amigos, nem muitos encontros nem muitos amores... Tudo se resume a uma casa, um amor e um filho. Tudo sem glamour, sem brilho, sem status... E mesmo assim, estou feliz. Que sonhos eu tenho pra esse ano? Que promessas eu quero me fazer?

   Emagrecer? Esquece... Estou feliz demais lambendo a panela do bolo de chocolate que acabei de fazer. Escrever toda semana? Escrevo porque gosto e quando tenho vontade. Se virar uma profissão, talvez coloque metas. Se virar obrigação, perde a graça. Me contento em ver meus amigos bem, evoluindo, promovendo, viajando... Estou feliz com meu mundo comum, meu universo particular. Quero ficar pintando meus baús, costurando meus lenços, brincando com meu filho, tirando minhas fotos de fim de tarde, me divertindo com meus alunos online (já que estamos em férias), dando um mergulho antes do anoitecer (já que moro na praia)... O que mais eu posso querer? Promessas de fim de ano? Ser feliz, aproveitar cada segundo com meu filhotto, assistir mais filmes, ler mais livros e deixar a roupa pra depois... essas coisas. Mas talvez eu nem precise prometer isso. Ah... já sei. Esse ano prometo fazer minha tatuagem. E acaba que essa semana vi uma coluna antiga da Martha Medeiros. Exatamente o que eu queria dizer nessa semana. Então faço minhas as palavras dela. E declaro aqui ser fã incondicional dela.

"02/05/2010 | 16h10 - Zero Hora

Martha Medeiros: Feliz por nada

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.
Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. "Faça isso, faça aquilo". A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando "realizado", também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso."

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